MOMENTOS

ALHURES

Donna Boris


Não peça hoje que seja clara...
nem que faça sentido as minhas palavras.
Estou divagando...
Já caminhei, cumpri as minhas obrigações, fiz a minha boa ação do dia.
Também fiz minhas orações costumeiras. Não, não me faça perguntas.
Hoje, estou contrita comigo mesma.
E a amiga de infância, respeitando o raro “não”, calou-se a observar.
Como para preencher o tempo... coloquei tudo do guarda roupas sobre a cama. Dobrei cada peça... separei coisas que gostava, e as que em mim não cabia.
Arrumei, tentando fazer sentido a nova colocação das peças.
Cores fortes juntas e cores claras em outra gaveta.
Pendurei nos cabides... também de forma coordenada,
as roupas que pediam para ali estar. Assim machucariam menos.
Olhei toda arrumação, minha amiga sorriu.
Eu, já movida pelo pedido do silencio, comecei a falar baixinho:
Mais uma vez te arrumo inteiro...
Guardo, como quem guarda o segredo da alma, em uma organização
para que não se perca. Nada quero perder do que venho cuidando.
Mas... o tempo alonga-se. Talvez o inquieto de alguns momentos me faça duvidar.
A terapia de voltar sempre a arrumar o guarda roupas... é como se organizasse
o meu espírito, na esperança de encontrar o perdido.
A querença existencial ocupa parte imensa do meu ser.
Onde andas?
E como se escutasse o meu murmurar das palavras...
minha amiga falou: Alhures!
É... ela tinha razão.  "Alhures" estamos... até quando?

(setembro – 1985)




PENSANDO

Donna Boris

E o menino voltou...
Seus olhos e sorriso são mais significativos que antes
Há tanto nele guardado
que o egoísmo não me visita... eu o quero livre.
O menino a vida são um só. Não existe vida sem o menino...
não existe menino sem a vida.

Contento-me com o breve aparecer nos meus sonhos.
Às vezes demora... em outras se faz quase constante.
Nada o distancia de mim.
 Pois, aonde quer que eu vá... o menino está comigo.
Somos parte da mesma essência.
Eternamente... os nossos espíritos estarão juntos.

(outubro – 1982)







SONHANDO

Donna Boris

A mesma estranheza que não explico...


me visita.
A cada vez que sozinha e silenciosa fico...
estás comigo.
Carinhosamente o momento se veste de Paz.
Eu não que sei quem és nem de onde vens...
me acalma.
Apenas fecho os olhos e me deixo ir...
O calor da tua mão eu conheço...
Já caminhamos tantas vezes juntos.
Sei de cor cada passagem do nosso passeio.
Onde vais parar... e
o som que mais gostas de ouvir.
A tua voz sei...
Mas teu rosto... Teu rosto...
Na ânsia de delineá-lo... desperto...
Que pena...


(agosto – 1979)
Poderia dizer que:

te gosto de sol a sol,
de lua a lua.
Quem sabe
de domingo a domingo?
Mas não estaria sendo verdadeira.
Então prefiro dizer que:
Adoro-te... até o próximo... Sempre!


Donna Boris



EM BRANCO

Donna Boris

O nada perguntou ao vazio:
Que estamos fazendo aqui?
O vazio... tentando encontrar resposta
No pensamento inexistente repondeu:
Sem palavras...
O nada ficou a olhar, perdido...
Quantas vezes a vida toma o rumo... do sem rumo!
E.. o vazio... constatou:
É... nada!
E o nada confirmou:
É... vazio!
(03.01.1979)